Ismael Iglesias
Acredito que todos nós já ouvimos essa frase de alguém que se acha conhecedor de whisky. Pode ter certeza de que se trata de um snob e chato. Essa mesma pessoa também deve se referir a comidas desta maneira: eu viajei e só comi camarão, pistola, só camarão grande, assim oh deste tamanho, pistola!!!
Quem diz uma bobagem dessa relativa à bebida, não conhece nada, simplesmente se trata de um blend, uma mistura de whisky de malt com whisky de grãos. Para ser whisky escocês, a mistura deve conter pelo menos 51% de malt, que é feito com cevada maltada e destilado em alambiques tipo Pot Still e o restante de whisky de cereais, como milho, aveia, trigo, centeio, ou mesmo cevada não maltada e destilado em alambiques contínuos tipo column still. Os melhores blends tem a partir de 18 anos, mas a coisa começa a ficar interessante com os VAT ou puro malt mas atingem a excelência nos Single Malt. Há os Single Malts das Lowlands, Highlands, com especial ênfase para os de Speyside, das ilhas de Islay, tremendamente turfados, Jura, Mull, Orkney, Skye, Arran, Campbeltown cada um com suas nuances, características únicas com envelhecimento em diversos tipos de barris, como carvalho em que foram usados vinho do porto, jerez, sauternes, etc.
Isto somente falando em Escócia, sem dizer dos Whiskeys da Irlanda, EUA, Canadá, Japão, sim Japão, tem excelentes single malt, que já ganhou prêmio como o melhor whiskey do ano pelo guia do Jim Murray! É um de Taiwan, o Kavalan Solist Vinho Barrique, que também conquistou em 2015 tal prêmio por outro guia. Bem, quem diz a frase do início, não conhece nada, concordam.
Podem acreditar, mas muita gente ainda pensa que dizer comeu camarão ou lagosta é símbolo de status, e ainda mais o camarão tem que ser “grande”, não importa o tipo, rosa, branco, de cativeiro, nem a maneira de preparo, mas se vier com catupiry, aí será um deleite!
No Brasil é impressionante como a falta de cultura gastronômica e um preconceito muito grande com relação a comida. Legumes, em especial a abobrinha, é coisa de pobre. Sempre digo que uma abobrinha bem feita é melhor que uma picanha mal feita. Eu assinei por quase duas décadas a revista La Cucina Italiana, com receitas maravilhosas, mas caso os restaurantes daqui as colocassem no cardápio pouca gente pediria porque ninguém quer saber de espinafre, abobrinha, nabos, couve rábano, pimentões, fígado, rins, atum, vôngoles, vieiras, sardinhas, Quem nunca experimentou um nabo francês na manteiga não sabe o que está perdendo.
Faz pouco mais de uma década que a rabada entrou no gosto dos brasileiros, nessa época era difícil de encontrar e quando se encontrava era baratíssima, atualmente o preço é de carne dita de primeira. Pouco tempo antes o ossobuco e o cupim também não eram citados e ocorria o mesmo. O cupim ainda, quando encontrado em algumas churrascarias era previamente cozido ou envolvido em papel celofane.
Há um vegetal que eu só encontro na Casa Santa Luzia, ainda que esporadicamente, e pouca gente o conhece, a Cambuquira. São simplesmente os brotos de abóbora, isso mesmo, as pontas das ramas dos pés de abóboras. São deliciosos, lembram espinafre. Quando eu era criança diziam que era comida de pobres, eu comi muito, mas é trabalhoso de se colher, mais fácil comprar na Santa Luzia…
Obviamente devemos seguir a estação das verduras, frutas e legumes para que possamos desfrutar do seu melhor potencial de aroma e sabor.
Simplicidade e sabor. Qual a melhor maneira de se comer um tartufo? São fatiar lâminas destes sobre um ovo frito na manteiga.
Como vimos, não há como ter preconceito com comida. Só há dois tipos de comida: bem feita e mal feita. Não quero com isso dizer que não temos que comer camarão e lagosta, mas que, além disso, existe muita coisa boa. Obviamente que temos, foie grás, que é um dos meus favoritos, pato, especialmente o magret, galinha d’angola, os confit, escargot da Borgonha, os tartufos, os frutos do mar, as vieiras, as navalhas, percebes, belons, ostras da bretanha, polvos, anchovas do cantábrio, as ovas, caviar de esturjão Beluga, Sevruga e Osetra, as botargas, os uni, que são as ovas de ouriço, as carnes de Wagyu, o boi japonês, as raças de bovinos britânicas, Angus, Hereford, entre outras, a maturação Dry Age, os cogumelos morilles, porcini, as flor de sal, açafrão, balsâmicos tradicionais de 30, 50, 100 anos, azeites especiais, os embutidos e queijos maravilhosos da Espanha, Itália, França, Portugal, Alemanha, enfim, ficaríamos horas falando de iguarias, ainda sem entrar no mundo dos vinhos, cervejas, aguardentes, vermouths, biters, licores, um mundo, que vai muito além de uma dose de um on the rocks.

















Parabens a dupla pela iniciativa de nos presentear com as pérolas do mundo gastronômico.